Coletar, Fiar, Tecer

Mergulhamos em Paraisópolis, r. São Bento e Minhocão para COLETAR folhas secas; FIAR fios de vida alinhavando folhas e elástico colorido e TECER cortinas. Ou seja, construir “Jardins de Vestígios”. Percebemos que, ao nos colocarmos em uma geografia restrita, com o olhar de coleta, já nos deslocávamos do cotidiano integralmente. E a nossa atitude não-cotidiana também gerava dúvida, curiosidade, repulsa ou atração nos que por nós passavam. Percebíamos os transeuntes alterando ritmo, diminuindo a velocidade do caminhar para nos olhar, girando a cabeça, olhando de soslaio, parando para observar, esbarrando uns nos outros pela atenção desviada… Uma deliciosa descoberta, que se tornaria eixo da pesquisa subsequente: na reação dos pedestres e alteração do “pulso da rua”, há dança!  O COLETAR veio à tona como atividade central, de onde emergiram temas, leituras, novas propostas. A presença do espaço geográfico ficou-nos tão forte, e as características de cada espaço tão particulares, que decidimos restringir o espaço geográfico da pesquisa e ação para a rua São Bento e arredores.

Jardim de Vestígios#2 - rua São Bento, "TECER"

Como método de trabalho, levamos a afirmação “a rua como tema e como espaço de manifestação  e indagações artísticas” às últimas conseqüências. Ao invés de ensaiarmos a portas fechadas para depois sair a público, invertemos o processo, e experimentamos o contato com o publico diariamente. Coletamos impressões de espaço e tempo: gestos, movimentos, historias, conversas, objetos, imagens, etc.. A partir desses “vestígios”, realizamos intervenções que emergiram da  coleta (o FIAR). Por meio delas, as impressões da rua – agora “estilizadas” -alteravam o pulso da própria rua , permitindo que os transeuntes significassem-nas. A rua São Bento transformou-se em palco. A cada semana, novas intervenções; passamos a ser reconhecidas e a reconhecer personagens daquele lugar. Que histórias estaríamos construindo? A fricção real – ficção interessa-nos cada vez mais. Investimos tempo em ouvir o que comentam sobre o que fazemos (uma de nós mistura-se ao publico e ouve os comentários).  Desde definições e rótulos – loucas, abobadas, artistas, ricas infelizes – até histórias complexas, quiçá novelísticas. Ou seja, pequenos elementos deslocados do cotidiano apressado estimulam a ficção e a imaginação. Interessante notar que o caminho habitual de hipóteses parece fortemente influenciado por enredos  de novela – a ficção de consumo de massa.

Jardim de Vestígios #2, Rua São Bento - "FIAR"

Ao mesmo tempo, as situações de performance na rua agregaram um novo elemento à pesquisa: a existência de mais de um nível de público.  Por não haver diretor no processo, sempre uma de nós estava fora da ação, observando, e tinha a oportunidade de assistir não só “a performance em si”, mas também  a reação dos transeuntes. Os transeuntes, por sua vez, eram , por um lado, público da performance e, ao reagirem , alteravam o pulso da rua . Aos nossos olhos, transformavam-se eles em protagonistas da ação.

O desafio posterior foi organizar  as experiências  e eixos estruturais de pesquisa em uma proposta de intervenção e TECER (ou compor) um formato que abrangesse todas as inquietações (de forma e conteúdo) .

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